quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O Mundo

http://www.youtube.com/watch?v=USZYqbjK_cM


O Mundo (Karnak)

O mundo é pequeno pra caramba
Tem alemão, italiano e italiana
O mundo filé milanesa
Tem coreano, japonês e japonesa

O mundo é uma salada russa
Tem nego da Pérsia, tem nego da Prússia
O mundo é uma esfiha de carne
Tem nego do Zâmbia, tem nego do Zaire

O mundo é azul lá de cima
O mundo é vermelho na China
O mundo tá muito gripado
O açúcar é doce, o sal é salgado

O mundo caquinho de vidro
Tá cego do olho, tá surdo do ouvido
O mundo tá muito doente
O homem que mata, o homem que mente

Por que você me trata mal
Se eu te trato bem
Por que você me faz o mal
Se eu só te faço o bem

Todos somos filhos de Deus
Só não falamos as mesmas línguas
Todos somos filhos de Deus
Só não falamos as mesmas línguas

Everybody is filhos de God
Só não falamos as mesmas línguas
Everybody is filhos de Ghandi
Só não falamos as mesmas línguas

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Textos Atualidades + Epitáfio p/ o Séc.XX -

Epitáfio para o século XX Affonso Romano de Sant'Anna
1.

Aqui jaz um século
onde houve duas ou três guerras
mundiais e milhares
de outras pequenas
e igualmente bestiais.

2.

Aqui jaz um século
onde se acreditou
que estar à esquerda
ou à direita
eram questões centrais.

3.

Aqui jaz um século
que quase se esvaiu
na nuvem atômica.
Salvaram-no o acaso
e os pacifistas
com sua homeopática
atitude
-nux vômica.

4.

Aqui jaz o século
que um muro dividiu.
Um século de concreto
armado, canceroso,
drogado,empestado,
que enfim sobreviveu
às bactérias que pariu.

5.

Aqui jaz um século
que se abismou
com as estrelas
nas telas
e que o suicídio
de supernovas
contemplou.
Um século filmado
que o vento levou.

6.

Aqui jaz um século
semiótico e despótico,
que se pensou dialético
e foi patético e aidético.
Um século que decretou
a morte de Deus,
a morte da história,
a morte do homem,
em que se pisou na Lua
e se morreu de fome.

7.

Aqui jaz um século
que opondo classe a classe
quase se desclassificou.
Século cheio de anátemas
e antenas,sibérias e gestapos
e ideológicas safenas;
século tecnicolor
que tudo transplantou
e o branco, do negro,
a custo aproximou.

8.

Aqui jaz um século
que se deitou no divã.
Século narciso & esquizo,
que não pôde computar
seus neologismos.
Século vanguardista,
marxista, guerrilheiro,
terrorista, freudiano,
proustiano, joyciano,
borges-kafkiano.
Século de utopias e hippies
que caberiam num chip.

9.

Aqui jaz um século
que se chamou moderno
e olhando presunçoso
o passado e o futuro
julgou-se eterno;
século que de si
fez tanto alarde
e, no entanto,
-já vai tarde.

10.

Foi duro atravessá-lo.
Muitas vezes morri, outras
quis regressar ao 18
ou 16, pular ao 21,
sair daqui
para o lugar nenhum.

11.

Tende piedade de nós, ó vós
que em outros tempos nos julgais
da confortável galáxia
em que irônico estais.
Tende piedade de nós
-modernos medievais-
tende piedade como Villon
e Brecht por minha voz
de novo imploram. Piedade
dos que viveram neste século
per seculae seculorum.


Escolha dois entre os textos abaixo (2 a 6)e ilustre com exemplos concretos (por ex. matérias de jornais) as tendências e/ou caracteristicas presentes na atualidade apontadas pelos autores.




2- “A hegemonia, da forma como a entendo, envolve liderança, capacidade de mobilizar outros países de acordo com uma agenda particular. Em outras palavras, significa fazer com que os outros países acreditem em um consenso em torno desse líder, na sua capacidade de agir em favor do interesse dos liderados. Nesse sentido, os Estados Unidos não são mais hegemônicos. Por enquanto, são a maior economia, e aquela com o maior aparato militar. E é precisamente por isso que podem dominar: porque têm um impacto sobre o mundo muito maior do que qualquer outra nação. Esse domínio, contudo, não significa que os outros países necessariamente seguirão sua liderança. Na verdade, eles não a seguem mais. Os Estados Unidos permanecerão dominantes, mas não aptos a liderar o mundo como fizeram, por exemplo, ao final da Guerra Fria. Naquele período, eles eram capazes não só de criar alianças políticas e combinações, mas também tinham o poder de induzir europeus e japoneses a superar antigas diferenças com o objetivo de reconstruir a economia mundial. Agora, os Estados Unidos não têm mais o poder para exercer a liderança rumo à reconstrução. É assim que eles têm o domínio sem a hegemonia. “Giovanni Arrighi, professor de Sociologia da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore
3- “Assim como nos últimos anos entraram na moda certos produtos light – o tabaco, algumas bebidas e certos alimentos –, também se foi gerando um tipo de homem que poderia ser qualificado como o homem light.
Qual é o seu perfil psicológico? Como poderia ser definido? Trata-se de um homem relativamente bem informado, porém com escassa educação humana, entregue ao pragmatismo, por um lado, e a bastantes lugares comuns, por outro. Tudo lhe interessa, mas só a nível superficial; não é capaz de fazer a síntese daquilo que recolhe e por conseguinte, foi-se convertendo num sujeito trivial, vão, fútil, que aceita tudo mas que carece de critérios sólidos na sua conduta. Nele tudo se torna etéreo, leve, volátil, banal, permissivo. Presenciou tantas mudanças, tão rápidas e num tempo tão curto, que começa a não saber a que ater-se ou, o que é o mesmo, faz suas afirmações como «tudo vale», «tanto faz» ou «as coisas mudaram».”

Henrique Rojas - “O Homem Light. Uma Vida sem Valores”

4- “Somos todos pós-modernos?
A resposta é sim se comungamos essa angústia, essa frustração frente aos sonhos idílicos da modernidade. Quem diria que a revolução russa terminaria em gulags, a chinesa em capitalismo de Estado; e tantos partidos de esquerda assumiriam o poder como o violinista que pega o instrumento com a esquerda e toca com a direita? Nenhum sistema filosófico resiste, hoje, à mercantilização da sociedade: a arte virou moda; a moda, improviso; o improviso, esperteza. As transgressões já não são exceções, e sim regras. O avanço da tecnologia, da informatização, da robótica, a gloogleatização da cultura, a telecelularização das relações humanas, a banalização da violência, são fatores que nos mergulham em atitudes e formas de pensar pessimistas e provocadoras, anárquicas e conservadoras.” Frei Betto Escritor e assessor de movimentos sociais [Autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros].

5- “A modernidade representou uma dominação da razão. Em contraparte, a pós-modernidade representou o retorno de uma pluralidade, ou seja, também um retorno da emoção, da 'magia', da afetividade. Enfim, uma volta do que se perdeu na modernidade, que tentou racionalizar todos esses aspectos. [...]- Não faço uma crítica unicamente aos marxistas. Faço uma crítica aos marxistas e aos positivistas. Pois tanto uns quanto os outros, continuam presos ao esquema analítico do século 19. O legado desse esquema analítico é o racionalismo. Mas não quero fazer só uma crítica da razão e do racionalismo. Quero completar a razão com o sensível.” Michel Maffesoli , sociólogo, autor : MODERNIDADE X PÓS-MODERNIDADE, "Elogio da Razão Sensível"

6- “(...) Outros adotaram a mística do pós-modernismo, que se esforça para cultivar a ignorância da história e da cultura modernas e se manifesta como se todos os sentimentos humanos, toda a expressividade, atividade, sexualidade e senso de comunidade acabassem de ser inventados – pelos pós-modernistas – e fossem desconhecidos, ou mesmo inconcebíveis até a semana passada. “

Marshall Berman autor de “Tudo que è sólido desmancha no ar – A aventura da modernidade”

sábado, 19 de setembro de 2009

Entenda debate sobre reforma no sistema de saúde dos EUA

da Folha Online

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fará um discurso na noite desta quarta-feira ao Senado e a Casa do Representantes (Câmara dos Deputados) em um esforço renovado para ganhar apoio bipartidário à sua proposta de ampla reforma na saúde.

Obama tem dois objetivos centrais com a reforma: reduzir o aumento dos custos com saúde e expandir a cobertura para mais americanos. Os EUA são o único país desenvolvido que não tem um sistema amplo de saúde, que cubra todos os seus cidadãos. As estimativas do governo americano indicam que cerca de 45 milhões de pessoas nos EUA não tem nenhum tipo de cobertura de saúde.

Para isso, a principal proposta de Obama é a criação de um plano de saúde subsidiado pelo governo, que seria acessível aos mais pobres e incentivaria a redução do preços dos planos privados através da competição no mercado.

A reforma, que tem várias versões em debate --a proposta da Casa branca, a proposta da Câmara e três versões de diferentes comitês do Senado--, enfrenta dura resistência entre os republicanos e os democratas moderados diante de um projeto que pode custar US$ 1 trilhão em dez anos ao debilitado orçamento americano.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

'Viva la Coca'






23/08/2009 - 08h35
Brasil substitui EUA em acordo com Bolívia
FABIANO MAISONNAVE
enviado especial da Folha de S.Paulo a Villa Tunari (Bolívia)

Em visita à região do Chapare, centro produtor de cocaína e berço político de Evo Morales, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vestiu um colar feito de folhas de coca, fez um discurso de apoio à reeleição do colega e anunciou que o Brasil substituirá os EUA num acordo de preferência tarifária para a compra de têxteis suspenso por Washington sob a alegação de falta de colaboração no combate ao narcotráfico.

"O Brasil vai comprar os produtos têxteis da Bolívia com tarifa zero, para a importação de US$ 21 milhões. São exatamente as preferências perdidas nos Estados Unidos", afirmou Lula, em discurso a milhares de simpatizantes de Morales, na maioria cocaleiros, que lotaram o pequeno estádio de futebol da cidade de Villa Tunari.

Bolívia realoca brasileiros com ajuda do Brasil
Governo nega que expulsará famílias brasileiras

Jorge Abrego/Efe

O presidente Lula e seu colega boliviano, Evo Morales, durante encontro neste sábado (22)

"Saúdo, companheiro Lula, o seu grande esforço de nos conceder o mercado de têxteis para o Brasil", discursou Morales. "É um ATPDEA Brasil sem nenhum condicionamento."

Morales encerrou a sua fala chamando Lula de "índio contemporâneo" e gritando, na língua quéchua: "Viva a coca, morte aos ianques."

Em 2008, o ex-presidente dos EUA, George W. Bush, tirou a Bolívia do ATPDEA (Lei de Preferências Tarifárias Andinas e Erradicação de Drogas, na sigla em inglês), que condiciona incentivos à exportação ao combate ao narcotráfico. Foi uma represália à expulsão, por Morales, do embaixador americano e de funcionários da DEA (agência antidrogas dos EUA), acusados de conspirar para derrubá-lo. Em julho, a decisão foi ratificada pela Casa Branca de Barack Obama, que diz que que o "alto escalão do governo" incentiva a produção de coca, matéria-prima da cocaína.

Atualmente, a Bolívia é o principal fornecedor de cocaína ao Brasil, que recebe cerca de 70% da produção, segundo estimativa da FELCN (Força Especial de Luta Contra o Narcotráfico da Bolívia).

Números do Escritório da ONU contra a Droga e o Crime (UNODC) mostram que, no ano passado, houve um aumento de 6% na área de cultivo e de 9% no potencial de produção de cocaína. É o maior índice dos três países produtores, que incluem ainda Colômbia e Peru.



Clima de campanha

Toda a visita de cerca de quatro horas foi feita em clima de campanha eleitoral -Morales é o favorito nas eleições presidenciais de dezembro.

Nos 30 km que separam o aeroporto de Chimoré a Villa Tunari e no estádio, milhares de simpatizantes esperavam com bandeiras whipala (indígena), do MAS (Movimento ao Socialismo, partido de Morales) e dos dois países. No estádio, uma faixa atrás do palco dizia: "Evo cumpre. Para viver bem, Evo presidente 2010-2015".

"Enfrentamos a ira dos poderosos, que não se conformaram em perder o poder. Eles ficam muito incomodados porque sabem que, na Bolívia, um índio, um sindicalista, um cocaleiro, e, no Brasil, um metalúrgico, um sindicalista, estão fazendo mais do que eles fizeram em todo o século 20", disse Lula.

O principal motivo da visita de Lula foi a assinatura de um empréstimo de US$ 332 milhões do BNDES para a construção de uma estrada entre Villa Tunari e o departamento de Beni, ao norte. O projeto é acusado de superfaturamento e de favorecimento à empreiteira OAS (única participante da licitação) pela oposição e por engenheiros, mas não há investigações conclusivas.

Os presidentes também discutiram a venda de aviões Tucano para o combate ao narcotráfico, mas não houve acordo. Lula viajou com apenas dois ministros -o chanceler Celso Amorim e Franklin Martins (Comunicação Social).

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Links América Latina

http://www.americalatina.org.br/

http://www.bvmemorial.fapesp.br/php/index.php
Biblioteca Virtual Memorial América Latina

www.memorial.org.br/ -

sábado, 8 de agosto de 2009

Bases, etanol e Rodada Doha opõem Brasil a EUA de Obama Entrevista Celso Amorim

São Paulo, domingo, 02 de agosto de 2009



Em entrevista à Folha, Celso Amorim expõe divergências com Washington

Jamil Bittar-4.dez.2008/Reuters

O chanceler Celso Amorim, que disse entender a preocupação da Venezuela sobre o uso de bases colombianas pelos americanos

ELIANE CANTANHÊDE
COLUNISTA DA FOLHA

O presidente Barack Obama mal completou seis meses de governo, e o Brasil já tem três frentes de discordância com os EUA: a intenção de ampliar a presença militar na Colômbia sem aviso prévio, o insucesso da Rodada Doha de negociações comerciais e o recuo de Washington sobre a revisão de tarifas para o etanol brasileiro.
Em entrevista à Folha, anteontem, o chanceler Celso Amorim tomou partido na nova crise entre Colômbia e Venezuela. Citando Millôr Fernandes, para comentar a conduta do presidente venezuelano, Hugo Chávez, ironizou: "O fato de eu ser paranoico não significa que não esteja sendo perseguido".
Sobre o etanol, o ministro disse que é "um ponto fundamental" nas relações comerciais com os EUA. E afirmou estar "cético" quanto ao desfecho da Rodada Doha.




FOLHA - Por que tanta preocupação com o uso de bases militares da Colômbia pelos EUA, se já há o Plano Colômbia?
AMORIM - É um fato novo. Se fosse a mesma coisa que já tinham, não precisavam fazer um novo acordo, não é? A impressão é que as bases servem para operação de aviões com raio de ação muito grande. Tudo isso feito assim, sem que tenha havido um processo, sem nos consultar. A Colômbia é um país soberano e tem o direito de fazer o que quiser no território dela, mas é uma presença militar importante na nossa vizinhança. Você pode dizer que já tinha em Manta [no Equador]. Ok, mas, se mudou, então há uma coisa nova, e nós queremos conhecer melhor.

FOLHA - O presidente Hugo Chávez tem razão ao reclamar?
AMORIM - Compreendo as preocupações da Venezuela. Diz-se que o alvo principal é o narcotráfico e ao mesmo tempo há relatórios do Congresso americano dizendo que a Venezuela estaria sendo conivente, ou leniente, com o narcotráfico. Daí, põem-se num país que é vizinho da Venezuela bases americanas -ou bases colombianas para uso americano, não importa. Gente! É a história do Millôr Fernandes: "O fato de eu ser paranoico não significa que não esteja sendo perseguido".

FOLHA - Por outro lado, o Brasil não se preocupa também com a queixa da Suécia de que armas vendidas à Venezuela foram parar com as Farc?
AMORIM - Não sei quando ocorreu, nem se ocorreu, e, se ocorreu, se foi antes ou depois do Chávez. E se foram roubadas? De qualquer maneira, vamos e venhamos, é só um episódio.
Muitas armas chegam lá, nas Farc, como chegam nas favelas do Rio. Esse episódio é uma coisa desse tamanhinho comparado com as bases militares.

FOLHA - A preocupação se alastra para a Europa, via Espanha?
AMORIM - Se, de repente, você tem uma força de fora muito grande na região... Bem, se as bases vão ter outra aplicação, e não está claro se vão ter, é natural que todos os países, inclusive de fora, se preocupem.

FOLHA - Essa ação não vai contra o discurso de paz, de não ingerência e desmilitarização de Obama e Hillary Clinton? É uma surpresa?
AMORIM - Em vez de fazer julgamento de valor, vamos conversar, ouvir explicações e entender melhor. Mas, na região, é importante ter transparência e clareza. Isso talvez tenha faltado. Você pode, por exemplo, ter garantias formais sobre como as bases serão usadas.

FOLHA - Não é contraditório o governo da Colômbia dizer que as Farc estão aniquiladas e agora justificar a presença americana justo para combater o que já está aniquilado?
AMORIM - Essa é exatamente uma das perguntas que se faz.

FOLHA - Pode ser só pretexto?
AMORIM - Eu não estou dizendo que é só um pretexto, mas você tem todo o direito de fazer esse raciocínio. O que preocupa o Brasil é uma presença militar forte, cujo objetivo e capacidade parecem ir muito além do que possa ser a necessidade interna da Colômbia.

FOLHA - E a Quarta Frota dos EUA, no Atlântico Sul?
AMORIM - O paralelo que se pode fazer com as bases é que ocorreu sem que nós tenhamos sido avisados previamente. Na época, eles próprios reconheceram que cometeram um erro de comunicação. As justificativas deles foram todas muito inocentes, de ajuda humanitária no Caribe etc.

FOLHA - A Rodada Doha fracassou?
AMORIM - Há uma reunião em setembro, em Nova Déli, e nem sabemos ainda se o representante comercial dos EUA irá ou não. Eles continuam com demandas para os países em desenvolvimento totalmente incompatíveis com o que eles concederam. Ou seja: o país que tem a chave para concluir a rodada mais rapidamente são os EUA, e nós não sentimos ainda um movimento que nos indique que vá ocorrer. Há um ano e meio, estávamos no meio de uma negociação. Agora, não.
Estamos parados. Por isso, estamos procurando outros caminhos. Nunca dissemos que não queríamos ter um acordo de livre comércio com a União Europeia, mas havia e há dificuldades específicas que precisam ser suplantadas. Só que você não pode ficar esperando a vida toda pela rodada.

FOLHA - Em vez de avançar, os EUA recuaram no que já havia sido acertado na Rodada Doha depois da vitória dos democratas?
AMORIM - Na realidade, o que eles têm trazido para as discussões é a mesma posição que os republicanos já tinham em dezembro, o que nos dificulta avançar. Trabalhamos intensamente durante seis meses e parecia que era possível, mas os americanos se enrijeceram. Aí, o governo Bush terminou, e não aconteceu nada.

FOLHA - E veio Obama e continuou sem acontecer nada?
AMORIM - E até sem muita clareza se havia interesse na Rodada. Há um mês, mais ou menos, eles defenderam a manutenção exatamente da posição que os republicanos haviam colocado. Isso nos levou à conclusão de que não havia condições de avançar. Querem mais, mais, mais, mas nem dizem exatamente o quê. Vou ser sincero: eu gostaria de ser otimista, mas estou cético neste momento.
Pode concluir? Até pode, mas levando mais uns dois anos?

FOLHA - Do ponto de vista de Celso Amorim, isso significa acabar o segundo mandato Lula, oito anos depois, sem Alca, sem Doha, sem acordos bilaterais, sem nenhum avanço na área de comércio?
AMORIM - Graças a Deus não fechamos a Alca, porque, senão, em vez de fechar o ano com um crescimento de 1%, estaríamos com o México, com uma recessão de uns 5%, 6%, sei lá. Se você pergunta se eu fico frustrado? Pessoalmente, claro que sim. O presidente Lula, possivelmente também. Mas, pior do que não fechar, é fechar um mau acordo. Os emergentes têm de ter mais, e os pobrezinhos têm de ter mais ainda, porque é uma rodada de desenvolvimento. Já no caso de Mercosul-UE, sentimos que eles, os europeus, estão mais pragmáticos. A crise talvez nos torne mais realistas, mais flexíveis.

FOLHA - Ou o contrário, mais fechados e mais protecionistas?
AMORIM - Esse risco também há, mas talvez sejam de alguns setores dos países, não dos governantes. Só se pode avançar com uma dose de realismo.

FOLHA - Obama e Thomas Shannon, que foi secretário para o Hemisfério Ocidental de Bush e será o novo embaixador em Brasília, tinham acenado com a revisão das tarifas contra o etanol brasileiro. Bastou a resistência de um senador de Iowa para a Casa Branca recuar. Como o Brasil vê isso?
AMORIM - Claro que não achamos bom. Não é positivo para nós, e até achamos que não seja positivo também para boa parte da sociedade americana. Vamos torcer para ser uma coisa episódica, que possa ser revertida lá. Quando você quer aprofundar as relações comerciais com os EUA, esse é sempre um dos pontos mais importantes.
Se não houver avanço na área de etanol, fica difícil onde mais você possa avançar, pelo menos na área de barreiras tarifárias. Eles sabem disso, aliás.

FOLHA - No caso de Honduras, já não há sinais também de que o consenso contra o golpe não é mais tão sólido assim nos EUA?
AMORIM - Tem gente que pensa de maneira antiga, lá como em qualquer lugar do mundo. Às vezes até por laços de amizade. É preciso dar força ao governo dos EUA, até para que todos percebam que não se trata de uma posição só do Obama, nem um capricho da Hillary Clinton, mas sim de todo o continente, a favor da volta do presidente Manuel Zelaya.

FOLHA - E o pacote de bondades para o Paraguai?
AMORIM - Estamos redefinindo uma relação, que deve ser percebida como verdadeira parceria pelos dois lados. Buscamos um termo médio. E, afinal, a verdade é que o Paraguai é de fato muito pobre e ali vivem centenas de milhares de brasileiros. Ninguém nem sabe quantos. Tudo isso é importante para o Brasil.

FOLHA - Quem paga a conta da triplicação do que o Brasil paga pela cessão de energia e da doação de uma linha de transmissão de US$ 450 milhões para eles consumirem lá uma energia que hoje a gente consome cá?
AMORIM - Pelo amor de Deus! Eles são donos de metade da usina, de metade da água. Eu não posso querer ficar com toda a energia. O que o presidente Lula decidiu é que não será o consumidor.

FOLHA - Mas só existem três formas: ou o contribuinte, ou o consumidor, ou a entidade consumidor-contribuinte.
AMORIM - Concordo, mas sabe quanto a cessão representa do orçamento total de Itaipu? Menos de 10%. A relação com o Paraguai é muito mais complexa do que isso.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Entenda os conflitos entre polícia e muçulmanos na China

da Folha Online

Um protesto da minoria étnica muçulmana uigur no oeste da China deixou ao menos 140 mortos e 828 feridos desde o começo deste domingo. A agência de notícias Xinhua informa que entre 1.000 e 3.000 manifestantes saíram às ruas para protestar contra a morte dos dois uigures na semana passada.

O protesto começou pacificamente neste domingo (5), na cidade de Urumqi (3.270 km de Pequim), capital da região autônoma de Xinjiang, contra a morte de dois uigures em uma fábrica de brinquedos do sul do país, após eles terem sido linchados. Os uigures criticavam a discriminação por parte da etnia han, dominante no país.

A manifestação rapidamente se tornou um ato de vandalismo na cidade. Redes de TV chinesas mostram os manifestantes quebrando lojas e queimando carros da cidade. Wu Nong, diretor do departamento de imprensa do governo local, informou que 260 veículos foram atacados e 203 casas ou lojas ficaram destruídas. A polícia divulgou nesta segunda-feira que ao menos dez pessoas foram presas acusadas de incitar os protestos. Foi decretado toque de recolher na região e "agora a situação está sob controle", informou nota da polícia.

Minoria

Os uigures são uma minoria predominantemente muçulmana. Muitos reclamam que estão sendo marginalizados econômica e politicamente em suas próprias terras, que possui ricas reservas de gás natural e minerais. Há entre 15 milhões e 20 milhões de islâmicos na China, quase a metade em Xinjiang. Os chineses da etnia han formam cerca 91,5% da população do país.

A etnia uigir está sob controle chinês desde 1955, quando foi fundada região autônoma de Xinjiang. Desde então são relatados choques entre os islâmicos e o governo, movimentos armados pró-independência, ataques terroristas e mortes de civis na área.

Os confrontos com a polícia vieram após protestos sobre a forma como a polícia lidou com os conflitos entre a maioria han chinesa e os uigures em uma fábrica no sul da China, onde dois uigures morreram.

Contudo, a principal causa por trás da manifestação foram provavelmente os conflitos religiosos, econômicos e culturais que se construíram em décadas de rígido controle central e que periodicamente eclodem em violência --embora nunca tenham chegado a uma escala violenta como a vista neste domingo.

Separatistas

O governo chinês diz que o levante de domingo foi incentivado por grupos separatistas exilados que subverteram a ordem na região. "Depois do incidente [na fábrica], as forças externas acharam um motivo para nos atacar, incitando estes protestos de rua", afirmou Nuer Baikeli, governador de Xinjiang.

Mais protestos

É improvável que haja mais protestos em Urumqi já que as forças de segurança já assumiram o controle da cidade e estabeleceram forte presença nas ruas.

Analistas afirmam, contudo, que pode haver incidentes isolados em outras cidades, particularmente naquelas onde há maioria uigur.

O governo chinês, contudo, deve intervir energicamente na região, com intervenção do Exército e prisões em massa, para impedir que novos protestos sejam realizados. As medidas são semelhantes às tomadas logo após os protestos no Tibete em março de 2008, quando um conflito étnico parecido ocorreu.

Na ocasião a polícia chinesa deteve 1.317 pessoas, das quais 1.115 foram libertadas depois, enquanto as outras foram julgadas. Os tibetanos no exílio dizem que a repressão das forças de segurança chinesas após os protestos deixou mais de 200 mortos.

Mudanças

Parece impossível que Pequim consiga ignorar um episódio de violência étnica como o deste domingo. Mas os protestos, que ocorrem três meses antes do aniversário de fundação da Republica Popular da China, devem dar tantos argumentos aos chineses linha-dura que defendem maior controle do governo quanto aos que defendem maior reconciliação.

Qualquer mudança deve acontecer ainda dentro dos bastidores da fechada política chinesa que defende o nacionalismo como uma ideologia unificadora e que favorece um rosto único e forte para ser mostrado ao mundo.